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segunda-feira, 23 de setembro de 2024

Inquisição - Parte 4 - A

 Igreja Católica: A Verdadeira Bruxa - A

Capa do livro Malleus Maleficarum, edição de 1576. Este livro transformou superstição em "realidade" e, desta "realidade", em morticínio de inocentes.
Junto com outros livros da Inquisição, estava sempre sendo renovado e "aperfeiçoado". Hoje constitui prova irrefutável da brutalidade da Igreja Católica medieval, pois foi ela própria que o produziu.
A Igreja diz hoje que "proibiu o livro", o que é uma mentira. O "Index Librorum Prohibitorum" (ou "lista de livros Proibidos") da Igreja, publicado pela primeira vez em 1559 no Concílio de Trento (1545 à 1563) e revisado pela última vez em 1948, continha livros de diversos autores, cientistas, filósofos e até de pensadores como Galileu Galilei (1564 - 1642). Mas não tinha nenhum dos manuais da Inquisição.
Todos os "livros proibidos" eram dos que discordavam dos dogmas católicos, dogmas estes produzidos por interpretações equivocadas e caprichos de papas. O Index rejeitava tudo, mesmo que fossem dados científicos comprovados. E em nenhuma das "revisões" se incluiu os livros da Inquisição.
Em 1966, o Papa Paulo VI aboliu o Index por se tornar obsoleto. Mas ele está disponível até hoje e constitui mais uma prova de que a Igreja lutou contra a ciência objetiva, tentou fazer com que a humanidade ocidental permanecesse em trevas e, no caso da Inquisição, que não se arrependeu dos crimes cometidos na nela.

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- Aumentando o Leque de Acusações -
A Europa já estava há mais de 300 anos suportando o peso das Inquisições da Igreja. Durante esse período, as "escolas" eram todas dirigidas pela Igreja e tudo o que se ensinava aos poucos que as frequentavam (geralmente os mais abastados) eram os dogmas católicos. Para que alguém pudesse aprender a ler precisava ter alguém que já sabia e estar disposto ensinar. 
Além disso a Igreja desestimulava o ensino normal ao povo de forma que a instrução acadêmica ficou restrita a poucos. O povo foi ficando, quase que inteiramente, analfabeto e rude. Isso, do ponto de vista da Igreja, era "bom". Incentivando crenças pagãs que causavam medo, como anjos e demônios vingadores, possessões, inferno ardente, castigos divinos, etc., ela, pelo medo, dominava mais facilmente.
Em tal ambiente de estupidez, causada diretamente pela Igreja, surgiu no povo a superstição das "bruxas". Assim, das crenças do paganismo antigo, se desenvolveu, na Idade Medieval, a concepção popular, inexplicável do ponto de vista lógico, religioso e também por pura histeria, que as "bruxas" eram as culpadas por tudo. Se não chovia, a culpa era das bruxas; se chovia demais, era culpa delas; se aparecesse uma doença em alguém, só podia ser obra das bruxas. Até mesmo se uma mulher fosse bonita podia ser considerada "filha do Demônio", por promover a tentação.
Os prelados da Igreja, obviamente mais instruídos do que o restante do povo, poderiam ter combatido essa superstição que agitava o já maltratado povo. Mas, ao invés disso, eles endossaram a crença em bruxas. No leque de acusações contra as pessoas, a igreja não usaria só o termo "herege", mas também o termo "bruxaria".
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- Quando a Superstição se Tornou "Verdade" -
Naquela época era o Papa Inocêncio VIII (1432 - 1492), que estava no poder temporal da Igreja. Esse papa ficou mais conhecido por ter protagonizado o que seria chamado de primeira transfusão de sangue da História. 
Em 1492, sob "orientação médica", havia bebido o sangue de três meninos de 10 anos (obviamente sequestrados), matando-os, a fim de se curar da doença. O papa não se curou e acabou morrendo. O médico que receitou esse "tratamento" fugiu para não ser morto. A Igreja hoje diz que isso é lenda, mas o fato é que há registros históricos detalhados do acontecimento. - Diario della Città di Roma di Stefano Infessura (Diário da Cidade de Roma), editado pelo historiador italiano Oreste Tommasini (1844 - 1919), Roma, 1890, páginas 275, 276.
 
Oito anos antes daquele trágico evento, em 1484, Inocêncio VIII emitiu a bula "Summis Desiderantis Affectibus" (que, do latim, significa "O Mais Alto e Desesperado Afeto"), condenando a "Bruxaria", não como a superstição que realmente era, mas como "algo real e nocivo à sociedade e a fé".
Inocêncio VIII também instituiu dois inquisidores, dois teólogos dominicanos alemães, para "investigar a bruxaria": O frade Heinrich Kramer (1430 - 1505) e o monge Jacob Sprenger (1435 - 1495). O resultado dessa "investigação" veio na forma de um livro, por eles publicado em 1487: "Malleus Maleficarum" (em Latim: "Martelo das Feiticeiras"). 
Este livro ficou conhecido como "o livro mais cruel e nocivo da literatura mundial". Hoje a Igreja se defende dizendo que "proibiu o livro". Mas o fato é que, do Século XV até o final da Inquisição em 1834, no Século XIX, ou por quase 350 anos, tanto a igreja Católica como as "protestantes" usaram extensivamente este livro como "norma de combate à bruxaria".
Assim, o que era pura superstição, passou a ser "verdade" para a teologia católica.
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- O Martelo das Feiticeiras -
O livro "Martelo das Feiticeiras" (Malleus Maleficarum), como o Manual dos Inquisidores (havia outros "manuais" inquisitórios menos famosos), constitui forte prova do que realmente foi a terrível carnificina da Inquisição. 
Escrito em Latim (a igreja sempre insistiu que "a língua da Bíblia é o Latim", muito embora ela fosse originalmente escrita em hebraico e grego), e com o advento da Imprensa, surgida em 1440, o livro passou, como outros da Inquisição, a ser traduzido e "atualizado" (incluindo relatos das ações dos inquisidores) em edições posteriores.
Um desses relatos se encontra na página 72 de uma das edições. O Inquisidor mandou queimar 41 bruxas no distrito de Barby, no norte da França. Hoje Barby não tem 500 habitantes e naquela época muito menos. Se algumas mulheres não tivessem fugido, praticamente todas as mulheres do local seriam mortas.
O livro, totalmente folclórico, "explica" o que são as bruxas e como reconhecê-las. cita extensamente as palavras do filósofo "Santo" Agostinho (354 - 430) que, por sua vez, dizia coisas tão absurdas que, nos dias atuais, são vistas como não ditas por ele. 
Por exemplo, em "Sobre a Trindade III", Agostinho de Nipona diz que "o demônio pode reunir sêmen humano e transportá-lo em outras pessoas, produzindo efeitos corporais", dando a entender que uma bruxa "já nasce bruxa" (Malleus Maleficarum, Página 32). Isso justificaria a morte de crianças e homens por "bruxaria".
O livro também cita obras pagãs, falando, por exemplo, da "deusa" Vênus dando a luz a Enéas" como se fosse verdade, para justificar o "combate".
Só mesmo lendo o livro, podemos vislumbra-lo com o que foi dito dele acima, Por isso uma das edições comentadas está a disposição aqui nesta parte deste assunto (clique no link abaixo)
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- O Fim da Superstição -
Ainda hoje, há pessoas que acreditam em bruxaria. Algumas até acreditam serem bruxas. Mas, na realidade, não sabem o que isso significa ou que significou naqueles anos terríveis da Inquisição. Porém, o fim dessa superstição aconteceu ainda na época em que eram caçadas. E não foi por intervenção da Igreja ou dos Estados. Foi o próprio povo que percebeu o erro.
O espírito humano, dotado de inteligência, no coletivo, começou a se indagar se aquilo no qual acreditavam era mesmo verdade. Com a mesma facilidade que conceberam as supostas bruxas, também se perguntaram: "Se as bruxas são tão poderosas a ponto de mudar até o tempo e causar inundações, por que nada faziam diante dos inquisidores para se defenderem?" Ou "que culpa tem uma jovem de possuir uma verruga, idêntica a que os homens possuem, mas que, no caso delas, é considerada pela Igreja como "mamilo de Satanás""? A crença na bruxaria foi perdendo sentido.
Mas, ao passo que o povo ia se livrando da superstição, a Igreja lutava para mantê-la. Dizia que aqueles pensamentos populares eram "inspirados por bruxas". Mas a questão era: Se eram tão más, por que as "bruxas" só atacavam pessoas do povo, inocentes e as vezes a si próprias, ao invés de atacarem a igreja, aquela que, dizendo-se "do bem", verdadeiramente as perseguiam a as matavam?
Matar pessoas sempre esteve na consciência humana como algo contrário às Leis de Deus. E as consideradas "bruxas", muitas delas jovens e crianças, não matavam ninguém. Muitas vezes nem sequer sabiam por que estavam sendo torturadas. Algumas delas, já idosas e com a locomoção dificultada, até curavam pessoas com remédios feitos a base de ervas. Quem matava pessoas, não eram elas. Eram os assassinos, o Estado... e a Igreja.
Assim, não demorou muito para que, não as moças do povo, mas a Igreja Católica, pela devastação que causava, fosse considerada como a "bruxa medieval", aquela que causava o mal que dizia combater. Não as moças do povo, mas a Igreja Católica era a que "mantinha relações com demônios", era "inspirada por pensamentos demoníacos assassinos" e estava repleta de algozes brutais e desumanos em seu meio.
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Na próxima parte, vamos analisar, com base na documentação produzida pela própria Igreja, alguns aspectos da horrenda perseguição às "bruxas". Veremos, por exemplo, que esta perseguição às mulheres esteve ligada, em grande parte, à sexualidade reprimida e deturpada dos clérigos que a perpetraram.
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Continua.
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Links:
Malleus Maleficarum - Edição traduzida e comentada em português:
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Index Librorum Prohibitorum
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Veja a lista completa dos autores e obras "proibidos" no Index:
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Inquisição - Parte 3

 A Inquisição Expõe Sua Verdadeira Face

Representação de Tomás de Torquemada, chamado de "Martelo dos Hereges" pelos católicos fanáticos de hoje, como se fosse uma honra ser chamado assim. Este assassino espanhol agiu com tal brutalidade em nome da fé católica contra cidadãos inocentes, que até hoje, seu nome é personificação de terror e injustiça. Mesmo assim, o Papa Cisto IV o elogiou como "zeloso prestador de serviços para a glória de Deus". Com certeza foi zeloso, mas só se for para o "Deus deste mundo" - 2ª Coríntios 4:4 

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- "Aperfeiçoamentos" e Adaptações -
Corria o ano de 1478 (Século XV). Por quase 300 anos, as Inquisições, Episcopal e Delegada, estavam funcionando, como grandes churrasqueiras de carne humana. E sendo sempre, ambas, "aperfeiçoadas" (leia-se "aperfeiçoadas" como "refinadas na maldade").
Um exemplo desse "aperfeiçoamento" está na estrutura. Quando se iniciou no Século XII, a Inquisição caçava pessoas mas as julgava em qualquer lugar, de forma aleatória e sem nenhuma regra. O que iria valer seria a palavra final do Inquisidor.
Mas depois, no Século XIII, o Papa Gregório IX (1145 - 1241), promulgou, em 1233, a Bula papal "Licet ad capiendos" ("É Permitido Levar"), na qual os Inquisidores ficariam baseados em Tribunais da Inquisição fixos, espalhados pela Europa, e os réus seriam levados até eles.
Daí, em 1376, foi lançado o Manual dos Inquisidores, que regulamentou os "julgamentos". Assim ficou organizada a Igreja e este seria seu Modus Operandi "para sempre". Ao invés de pregar o reino de Deus, como fazia Jesus e os apóstolos, a Igreja, como uma agremiação de torturadores, se concentrava em caçar e matar pessoas.
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- "Exigit Sincerae Devotionis Affectus" -
A Inquisição, no entanto, segundo a Igreja, precisava ser "aperfeiçoada" em outro sentido: Ser adaptada para cada tipo de grupo dissidente. Ao passo que no Sul da França e Alemanha os grupos de dissidentes eram de um tipo (pró Bíblia e messiânicos), na Espanha eram de outro, de influencia muçulmana e judaica.
Assim, naquele ano, 1478, o Papa Cisto IV (1414 - 1484), que construiu a Capela Cistina e os "Arquivos da Igreja" (justamente para guardar o já enorme volume de documentos da Inquisição), emitiu a Bula "Exigit Sincerae Devotionis Affectus", que instituía a "Inquisição Espanhola". Esta seria a 3ª Inquisição em ação na Europa medieval.
O significado dessa bula em latim diz tudo: "Exigindo Resultados de Devoção Sincera". Na Espanha, em particular, a Igreja acreditava que os marranos, os mouros muçulmanos e os judeus estavam se convertendo ao catolicismo apenas para escapar da Inquisição. Porém "mantinham o coração" ainda nas crenças nativas.
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- A Inquisição Espanhola -
Por que a Inquisição Espanhola foi especial? Porque ela, diferente das outras, teve um caráter nacionalista. Os reis Fernando de Aragão (1452 - 1516) e Isabel de Castela (1451 - 1504), os "reis católicos", primos e casados, haviam vencido os muçulmanos que estavam se estabelecendo na Espanha. Eles procuravam montar um estado nacional unificado e consideraram a religião, mais precisamente a Inquisição, como "fator decisivo", pois poderiam reprimir opositores políticos (que seriam, mesmo sem o ser, acusados de heresia).
Para a Igreja tal desejo real era também vantajoso, pois aumentaria seu poder numa região que se encontrava muito dividida do ponto de vista religioso
Esta Inquisição fez aparecer também, além do sentimento anti muçulmano (que perdurava desde a época das cruzadas), o caráter antissemita do catolicismo. E esta lamentável característica antissemita traduzia tudo o que o cristão não deve ser.
Por exemplo, na época dos apóstolos, estes conversavam com as pessoas, de qualquer crença, sobre o Cristo e sobre o reino de Deus para ver se escolhiam se converter ou não. Mas a Igreja Católica não agia assim. Além de não oferecer nenhum suporte à conversão forçada das pessoas que nem a conheciam, lhes cobrava, a poder de ferro e fogo, o que não podiam saber. Assim, judeus - e também muçulmanos - eram caçados e considerados culpados por motivos que sequer entendiam.
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- Tomás de Torquemada -
É nesse ambiente político da Espanha do Século XV, que se destaca Tomás de Torquemada (1420 - 1498), um frade dominicano, nomeado Inquisidor Geral. Seu antissemitismo fanático fez com ele se destacasse até mesmo entre outros inquisidores. O curioso é que ele próprio era descendente de judeus.
As ações de Torquemada na Inquisição, para a qual foi nomeado em 1483, fez com que houvesse um êxodo de judeus para Portugal, que fugiam para não serem mortos. Torquemada excedia as "regras" do Manual dos Inquisidores e não aceitava na igreja os convertidos. Se fossem pegos, judeus ou muçulmanos, seriam certamente mortos, independente do processo pelo qual passariam.
Durante o tempo em que exerceu seu reinado de terror, de 15 anos, Torquemada ocasionou, sozinho, a morte de pelo menos 2 mil pessoas (algumas fontes citam 10 mil).
A história registra que a crueldade de Torquemada foi tão grande que, segundo se alega, foi "reprovada" pelo Papa Alexandre IV (1431 - 1503). Mesmo assim nada se fez para que ele parasse com os Autos de Fé" de Torquemada que, segundo a The Enciclopédia Britannica era um "horroroso holocausto oferecido ao princípio da intolerância". O "Auto de Fé" era a queima de pessoas em piras de fogo, em praça pública, acusadas de heresia. Mas, no caso da Inquisição Espanhola, as acusações de "heresia" incluía também o muçulmanismo, o judaísmo e os opositores políticos dos reis católicos.
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- O Resultado da Inquisição Espanhola -
Conseguiu-se um "estado unido pela fé" através da Inquisição? Não. Apesar da brutal perseguição político/religiosa que se promoveu com a desavergonhada e descarada imposição pela força do catolicismo, a Espanha continuou um estado laico (com muitas denominações de fé) como sempre foi. Conseguiu a Inquisição, pelo medo, impor a fé que pretendia nos corações dos "hereges" espanhóis? Pelo contrário, muitos até preferiram morrer a se converter para aquela religião assassina. E até mesmo muitos católicos espanhóis se mantinham como tais não por fé, mas por medo.
De fato, o catolicismo expôs, na Inquisição Espanhola, sua verdadeira face. E graças a brutalidade da Inquisição que sofreu, a Espanha, como um todo, reflete até hoje "ecos" daqueles tempos. Por exemplo, o interesse pela Bíblia aumentou mais nos espanhóis do que no restante dos europeus. Na Espanha a Bíblia era proscrita até mesmo para os católicos.
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- A Motivação Para a Inquisição -
A motivação maior para a Inquisição era a forte crença, de origem pagã, num "inferno para almas pecadoras, que sofreriam eternamente nele, após a morte". Algo não ensinado na Bíblia e jamais imaginado por Deus. Que Deus amoroso permitiria que alguém sofresse horrível e eternamente por uns poucos anos de pecado? Isso, de fato, seria muito mais injusto do que a pior das injustiças humanas.
Este aspecto da Inquisição será analisado na próxima parte
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Continua

 

Inquisição - Parte 2

 Inquisição - As Primeiras Letras da Morte

A capa do livro Manual dos Inquisidores. Este livro, preservado historicamente até hoje, constitui prova incontestável da brutalidade de uma instituição religiosa que, dizendo-se "de Deus", tratava a criação Dele com ódio assassino. As palavras que este livro contém são de uma insensibilidade tal que só podem ser atribuídas como inspiradas por demônios. Deus jamais inspiraria que uma pessoa agisse de forma tão desastrosa com outras. O próprio Jesus, prevendo a Inquisição e outras barbaridades feitas em nome dele e de Seu Pai disse:
Eu lhes disse essas coisas para que vocês não tropecem... De fato, vem a hora em que quem matar vocês pensará que está prestando um serviço sagrado a Deus. Mas eles farão isso porque não conhecem nem ao Pai nem a mim. Contudo, eu lhes disse essas coisas para que, quando chegar a hora de acontecerem, vocês se lembrem de que lhes falei delas" - João 16:1-4

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(Material sensível - É recomendado cautela ao ler)
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- Pena de Morte Indireta -
A Inquisição iniciou, em caráter oficial, em 1184, já de forma brutal. Visava banir (excomungar) quem não fosse católico da igreja. A "bula" papal, que dava início a Inquisição, se chamava "Ad abolendam" ("abolição" ou "para a abolição"). Estipulava que "não somente os pais, mas também os filhos dos hereges " deviam ser banidos, pois "estavam destituídos da graça de Deus pelo pecado dos pais".
Além disso, os imperadores, todos eles católicos, começando por Frederico I Barba-Roxa (1122 - 1190), rei da Alemanha e Imperador do "Sacro" Império Romano-Germânico, tinham como obrigação castigar aqueles que fossem banidos.
Esses castigos incluíam chicotadas em praça pública. No caso dos "hereges", era feito com chicotes de couro mais pesados que os normais e com pontas de ferro que destruía fisicamente as vítimas e matava os mais fracos. Depois vinha a obrigação de usar por toda a vida, sob pena de prisão perpétua por descumprimento, "roupas" distintivas, meros sacos de mantimentos, com a palavra "herege" costurada neles.
O que significava esse banimento da igreja e os castigos em público? A pessoa banida e castigada não conseguia mais emprego, não podia comprar ou vender, não tinha proteção de qualquer espécie e era constantemente agredida nas ruas. Tinha sua casa invadida, incendiada ou confiscada pela igreja ou pelo reinado. Isso a obrigava a fugir, com toda a família, para lugares menos agressivos, o que era raro. Em todos os casos a pessoa se transformava num andarilho. Quem lhe desse abrigo seria também acusado de heresia e sofria o mesmo destino. Punia-se assim, não só o "crime" de não ser católico, mas também a piedade dos católicos para com seus semelhantes.
Em poucos meses a pessoa banida estaria morta quer fosse de fome, quer por abandono, quer de doença ou por linchamento. Ser banido da igreja era o mesmo que estar, indireta mas certeiramente, sob uma pena de morte. É por isso que, muitas vezes, famílias inteiras eram divididas ou ficavam arrasadas pela Inquisição, pois os parentes do "herege", mesmo os mais distantes, se reconhecidos como tais, também eram agredidos da mesma forma.
No entanto, essa chamada Inquisição Episcopal (sob direção dos bispos), que espalhou toda sorte de terror na Europa, não parecia agradar a Igreja. Ela desconfiava que alguns bispos não eram zelosos o suficiente para "descobrir todos os hereges".
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- Duas Inquisições -
Mesmo que os bispos, nas cidades europeias, se esforçassem para banir hereges, a sede da igreja em Roma não estava satisfeita. Os números de punições relatados nunca eram vistos como verdadeiros.
A Igreja não se preocupava em averiguar se houve injustiça nos "julgamentos". Então ela começou a mandar ou nomear "delegados", geralmente monges ou abades, através da Europa, que tinham o poder de promover uma Inquisição paralela. Esta foi chamada de Inquisição Delegada.
Assim, uma pessoa que tivesse passado pela Inquisição Episcopal e saísse ileso, o que era raro, podia novamente ser "inquirido" pela Inquisição Delegada. E dessa praticamente ninguém conseguia se livrar.
Os monges delegados eram mais duros que os bispos. Não levavam em conta o que o réu dizia. Este podia jurar - e provar - ser católico fervoroso que de nada adiantava. Para aqueles monges insensíveis, se o réu estava diante deles, por qualquer motivo que fosse, mesmo que fosse por calúnia de algum desafeto, era realmente culpado. Esse pensamento fez com que muito as pessoas, realmente católicos convictos e, portanto, inocentes do ponto de vista da própria igreja, fossem acusados, julgados, condenados e punidos.
Mas como era o processo inquisitorial?
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- O Processo "Judicial" da Inquisição -
Ironicamente os defensores da Igreja Católica, nos dias atuais, em fóruns de debates, ignorando o que a própria documentação da Inquisição diz, alegam que "os processos da Inquisição foram um avanço para o Direito e para a Justiça como um todo". Todavia, não se pode chamar aquilo de "avanço", ou ligar aquele tipo de "julgamento" com processos judiciais normais. O contrário foi verdade.
Desde os tempos bíblicos, processos de julgamentos, sempre realizados por autoridades seculares e não religiosas, eram muito mais justos do que os da Inquisição, onde o réu tinha direito a ampla defesa e os castigos eram proporcionais ao crime.
Mas os processos da Inquisição, pseudo-jurídicos, não julgavam crimes. Julgavam a fé, a consciência e o pensamento das pessoas, que não são crimes. Não facultava o direito a ampla defesa ao "réu" e aplicava castigos antes do resultado do "julgamento". Ou seja: Os "processos" da Inquisição, documentados pela própria Igreja, grotescos espetáculos de loucura e injustiça, constitui uma forte evidência contra o argumento de que ela é "cristã".
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- O Manual dos Inquisidores -
Os "historiadores" católicos, enviesados religiosamente, costumam dizer também, quando encontram pessoas que não sabem quase nada sobre a Inquisição que outros historiadores, em "perseguição" à Igreja, inventam. Sempre procuram amenizar o tema. Dizem que "não houve tortura nem morte na Inquisição" e que "houve só confisco de livros".
Se estão ou não usando de desonestidade neste argumento vai depender do conhecimento que eles próprios possuem sobre o assunto. Mas a farta documentação que existe, mostra, inclusive, que a maioria dos historiadores sérios "pega leve" quando diz que a Inquisição foi um período "muito triste" da humanidade. A Inquisição foi muito pior que simplesmente triste.
Por exemplo, o Manual dos Inquisidores, escrito por Nicolás Eymerich (1320 - 1399), um teólogo católico e inquisidor catalão na Espanha, passou a ser o documento de "procedimentos" dos inquisidores desde que foi lançado em 1376. Nicolás foi um padre ganancioso que estava disposto a acumular cargos, não só na Igreja (ele nomeou a si próprio de "Grande" Inquisidor), mas também nas cortes seculares. Ele chegou a ser, por um tempo, "Rei de Aragão" na Espanha.
Em seu livro "Directorium Inquisitorum" (ou "Manual dos Inquisidores"), de aproximadamente 800 páginas, escrito originalmente em latim mas traduzido para outras línguas, ele listava, entre outras coisas, não só os "suspeitos", mas também os doentes mentais como sendo "hereges".
Todos os "acusados", mesmo que de forma anônima por qualquer um, estavam sujeitos a 9 tipos de torturas durante o "julgamento", dentre as quais o esmagamento das genitálias, ter olhos e unhas arrancados e a 'estrapação'. Estrapação é o retalhamento do corpo humano preso em rodas sobre uma esteira de pregos ou serrotes.
O manual foi revisto e ampliado por Francisco de La Peña em 1578 e, a partir de então começou a ser publicado como um "livro norma" para os prelados (padres, abades, monges, etc) da Igreja, para dirigir-lhes o comportamento diário.
Assim, pode-se perguntar aos defensores da Igreja que minimizam a Inquisição: Como negar um documento desses, como prova?
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- Links dos Papeis da Morte -
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O livro Manual dos Inquisidores, uma das publicações que embasa o escrito acima, foi traduzido para diversas línguas por diversos tradutores, na íntegra por alguns e condensados por outros. Está disponível em alguns sites. Este é um deles:
 
É interessante também o trabalho do Professor Durval de Noronha sobre o livro:
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A Bula papal Ad Abolendam também está disponível na Rede. Aqui um trabalho sobre ela, de Leandro Duarte Rust, da Universidade Federal do Mato Grosso:
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domingo, 22 de setembro de 2024

Inquisição - Prólogo

 Inquisição - Prólogo

Uma representação de Maria 1ª, a "Sangrenta" da Inglaterra.

 

- A Europa do Século XVI -

Maria 1ª, ou Maria Tudor (1516 - 1558), foi uma rainha inglesa numa época em que quase toda a Europa estava sob o machado sangrento da Inquisição Católica. O único país onde não havia mais os "Autos de Fé" (ou "queima de pessoas vivas em praça pública") era a Inglaterra. O rei Henrique 8º (1491 - 1547) havia separado o país do catolicismo em 1534, criando a Igreja Anglicana. Todavia Henrique 8º também matava pessoas. As vítimas eram as que não aceitavam a sua chefia da nova Igreja. Mas em pouco tempo, quase não havia mais oposição ao anglicanismo.
Isso porque houve avanços do anglicanismo, principalmente quando seu filho, Eduardo 6º (1537 - 1553) o sucedeu como rei, aos 9 anos de idade em 1547. Os conselheiros de Eduardo promoveram perseguição aos que obstinadamente se apegavam ao catolicismo e destruíram as imagens das igrejas. Mas a Bíblia já podia ser lida em inglês pelo povo. No resto da Europa, a Bíblia, além de ser proibida ao público, era lida, apenas pelos padres, em latim, uma língua morta já naquela época e que ninguém entendia, nos ofícios.
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- Reacendendo a Fogueira -
Mas Eduardo morreu de tuberculose aos 15 anos. E Maria 1ª o sucedeu em 1553.
Maria 1ª era católica e queria "devolver a Inglaterra ao Papa". Assim, contra a vontade popular ela declarou que a Inglaterra "pedia perdão ao Papa por ter se tornado protestante e voltava a ser católica novamente".
Com Maria 1ª, a Inquisição se instalou novamente na Inglaterra, e com força porque ela era, do ponto de vista religioso, tão intolerante quanto Torquemada (1420 - 1498) havia sido na Espanha. Nos cinco anos em que reinou, ela promoveu êxodo de pessoas ricas, e, por consequência, desemprego e miséria. Ao menos 400 pessoas, homens, mulheres e crianças, morreram nas fogueiras públicas pelo crime de "não serem católicas".
Maria 1ª não considerava os anglicanos, ou quem quer que não fosse católico, como ser humano, mas como "furúnculo maligno que tinha que ser extirpado".
Não demorou muito para que fosse chamada pelo povo de "Maria Sangrenta"
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- Maldade Abençoada Pelo Papa -
O Papa da época de Maria 1ª era Júlio 3º. Durante o papado de 5 anos de Julio 3º, a corte romana ficou marcada por escândalos, entre os quais de pedofilia: Júlio 3º se relacionava com um menino de 14 anos chamado Innocenzo del Monte. E foi esse o homem que "aceitou o perdão da Inglaterra" e abençoou a "volta ao catolicismo" do país. O que isso significava?
Por exemplo, John Hooper (1495 - 1555), bispo de Gloucester foi queimado vivo num Auto de Fé. Mas a sua morte não foi como a do resto dos europeus, nos quais o fogo os matava em 5 ou 10 minutos. Sob ordens de Maria 1ª, o material usado (vegetação) era verde e estava molhado. Isso fez com que o bispo anglicano, de 60 anos, queimasse lentamente, durante 45 minutos. Hugh Latimer (1487 - 1555), bispo de Worcester, morreu da mesma forma aos 70 anos.
No caso das crianças, estas haviam nascido em lares anglicanos. Nada sabiam de catolicismo. Nem elas foram poupadas. Maria 1ª também inspirou um castigo a mais: Amarrava-se sacos de pólvora nas vítimas para que as explosões os "mandasse logo para o inferno" logo. Mas a pólvora não explodia, ou então explodia mas mutilava sem matar, de acordo com a historiadora medieval americana Carolly Erickson (1943 - viva). E as vítimas não eram amordaçadas para que seus gritos pudessem ser ouvidos por todos.
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- Resultado -
Ao contrário do que o Papa e Maria 1ª esperavam, a Inglaterra não se tornou inteiramente Católica. Como resultado de tamanha brutalidade, muitos católicos começaram a se questionar sobre a validade de uma religião que, dizendo baseada em Cristo e no amor, pudesse fazer tais coisas desumanas. E muitos, antes católicos convictos, passaram a ser anglicanos.
Os Anglicanos eram vítimas? Não. Uma vez no poder, também perseguiam católicos. A perseguição religiosa era para todos independente da orientação religiosa. Ia depender da religião do rei (ou rainha). Por exemplo, Elizabeth 1ª (1533 - 1603), que era anglicana, decretou que "praticar o catolicismo era traição". Isso ocasionou a morte de 180 católicos.
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- Maria 1ª Nos Dias Atuais -
Pensa que a Igreja Católica se arrepende de ter abençoado o massacre de inocentes ingleses? Não. "Historiadores" católicos atribuem a falha de tornar a Inglaterra uma nação católica ao "curto tempo de seu reinado" e não aos seus métodos na Inquisição, que insistem em chamar de "santa". Também procuram justificar o injustificável. 
Esses "historiadores" questionam enciclopédias, documentos históricos e qualquer coisa que vá contra o que querem crer, mesmo os documentos da própria Inquisição. Procuram até mesmo distorcer as palavras do Papa João Paulo 2º, que considerou a Inquisição como "crime" e pediu perdão por ele em 2004. Acha isso honesto para um historiador?
Aqui vamos iniciar, como fizemos na matéria "Igreja Católica - Como Se formou?", a História da Inquisição, baseada nos seus próprios documentos, desde seus primórdios (antecedentes), desenvolvimento e final. Esse período horroroso da humanidade, que durou uns seis séculos e ceifou a vida de milhões de pessoas inocentes, está documentado. E aqui vamos colocar um resumo deles.
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Não há nada cuidadosamente oculto que não venha a ser revelado, e não há nada secreto que não se torne conhecido.” — Lucas 12:2.
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Imagem: Uma representação de Maria 1ª, a "Sangrenta" da Inglaterra.

 

quarta-feira, 14 de agosto de 2024

Igreja Católica - Como Se Formou? - Parte 19

 Igreja Católica - Como Se Formou? - Parte 19

Uma tortura feita durante a Inquisição. Será que Deus aprovaria atitudes como essa, para a "sua maior glória"? Obviamente que não. Mas foi nisso, nesse reinado de horror e injustiça descomunais, o que o que se transformou a igreja romana durante toda a Idade Medieval. Mais detalhes deste terrível período da História humana vermos nas próximas partes.



- Um Enxerto Desonesto -
A trindade, conforme vimos, foi se desenvolvendo através dos séculos. Vimos também que, após os apóstolos, ou mais de 300 anos depois deles, os "pais da Igreja", começaram a dizer que Jesus é Igual a Deus. mas não incluíram o Espírito Santo. Este, como "terceira pessoa igual a Deus e Jesus" só seria proposto no Concílio de Constantinopla, em 381. Assim, em algum momento, entre o Concílio de Nicéia (325) e o de Constantinopla, começou-se uma "procura" por um ser espiritual para ser colocado, como terceira "pessoa" do planejado deus trino católico, de inspiração pagã.
Embora os "pais da igreja" criassem um novo deus, que talvez tenha sido interpretado pelas palavras de Jesus que pedia para os apóstolos batizarem as pessoas "em nome do Pai, do filho e do espírito santo" (Mateus 28:19), houve desonestidade por parte dos modernos tradutores da Bíblia, que reconheceram que tal pedido de Jesus não explicava realmente a Trindade. Eles enxertaram palavras apócrifas no texto de 1ª João 5:7, colocando que "Deus, Jesus e Espírito Santo são um só".
No entanto, pesquisadores descobriram que estas palavras não se encontram em traduções bíblicas mais antigas. Assim, o professor universitário americano Bruce Manning Metzger (1914 - 2007), que lecionava grego e era tradutor bíblico diz em seu livro A Textual Commentary on the Greek New Testament (Comentário Textual sobre o Novo Testamento Grego): “Não há dúvida de que essas palavras são espúrias e não têm o direito de permanecer no Novo Testamento.
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- O Concílio de Constantinopla -
Se o espírito santo fosse uma pessoa, e ainda mais fazendo parte de Deus e Jesus, ele estaria, desde o início da Bíblia, nomeado e explicado. Seu papel na história humana, suas palavras e tudo a seu respeito seriam amplamente divulgados, como são divulgadas, na Bíblia inteira, as mesmas coisas com relação a Deus e Jesus.
No entanto, sempre que aparecem, na Bíblia, as palavras "espírito santo", elas se referem a qualidade de Deus. Deus é um espírito e ele é santo (sem pecados). Veja por exemplos: Isaías 63:10 (triste) e Isaías 63:11 (trabalhador). Nunca, na Bíblia, o espírito santo se refere a um ser espiritual personalizado.
Outro exemplo: Todos concordam que Jesus é filho de Deus. O próprio Deus disse isso (Mateus 17:5; Marcos 9:7 e Lucas 9:35), mas em Mateus 1:18,20 se diz que Maria engravidou do espírito santo. Se este espírito fosse uma pessoa, Jesus não seria filho de Deus, mas dessa outra pessoa.
Mesmo assim, no Concílio de Constantinopla (381), convocado, a exemplo do de Nicéia, por um imperador romano pagão, Teodósio 1 - o Grande (346 - 395), discutiu-se "a natureza de Deus". Julgou-se necessária esta discussão porque o Imperador Juliano (331 - 363) havia tentado restaurar a antiga religião politeísta romana, desfazendo temporariamente o catolicismo criado por Constantino em Nicéia.
Daquela vez, em Constantinopla, a coisa seria diferente. o catolicismo, agora definitivamente trinitário, voltaria a ser a religião oficial do império, mas as outras religiões, antes toleradas, seriam banidas. O catolicismo seria então, não mais incentivado para as pessoas, mas imposto pelo poder das espadas romanas, em todas as partes do império.
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- Poder Mundial -
Assim o Deus trindade, que ainda não estava totalmente "explicado" (e, de fato, é um "mistério" até os dias atuais) foi imposto aos povos conquistados. Depois daquele ato de Teodósio, a Igreja julgou-se "reino de Deus no mundo". Para isso, foram buscar, não na Bíblia, mas nas palavras de Agostinho (354 - 430): "O reino de Deus começou neste mundo com a instituição da Igreja Católica" - The New Encyclopædia Britannica, Macropédia, Volume 4, página 506. Se tivessem lido a Bíblia sobre o reino de Deus, teriam se deparado com o texto de João 15:19, no qual Jesus diz que seus discípulos "não fazem parte do mundo".
Foi a partir daquela época que a Igreja começou a se juntar com toda sorte de ações mundanas, incluindo as guerras. O historiador francês Paul Augustine Louis Rougier (1889 - 1982) disse: "Enquanto se difundia, o cristianismo passou por estranhas mudanças, a ponto de se tornar irreconhecível. . . . A primitiva igreja dos pobres, que vivia de caridade, tornou-se uma igreja triunfalista, que chegou a um acordo com as autoridades constituídas quando não conseguiu dominá-las.
Ou seja: A Igreja Católica da época do Concílio de Constantinopla era diferente da igreja Católica de 50 anos antes. Ela era "mais mundana". Quando o último imperador romano do Ocidente foi deposto por tribos germânicas, em 476, o Bispo de Roma Simplício (430 - 483), declarou ter direito a substituir o imperador e a Igreja Católica de substituir o império como um todo: A The New Encyclopædia Britannica (Nova Enciclopédia Britânica) registra: “Constituiu-se um novo poder: a Igreja Romana, a igreja do bispo de Roma. Esta igreja considerava-se sucessora do extinto Império Romano. Os papas de Roma . . . estenderam sua reivindicação secular do governo pela igreja além das fronteiras da igreja-estado e desenvolveram a chamada teoria das duas espadas, declarando que Cristo deu ao papa não somente o poder espiritual sobre a igreja, mas também poder secular sobre os reinos do mundo.”
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- O Reinado do Terror -
Essa nova condição da Igreja Católica, de uma instituição governamental, política e militar, ao estilo mundano, fez com que, a exemplo dos demais governos políticos, também se dividisse. Ainda no final do Século 5 ela se dividiu, dando origem as Igrejas Católicas da Armênia, da Síria e do Egito, que declararam não estar sujeitas ao bispo de Roma.
Durante os Séculos 11 e 12, surgiram muitos grupos dissidentes espalhados por todos os territórios, todos saídos da Igreja Católica, que resolveu radicalizar. Em novembro de 1184, no Sínodo (ou Concílio) de Verona, o Papa Lúcio 3 (1097 - 1185), em conluio com o Imperador do "Sacro" Império Romano Germânico, Frederico Barba-Roxa (1122 - 1190), publicou a Bula papal Ad Abolendam, que condenava como hereges e anátemas os seguidores do catarismo, arnoldismo, josephinismo, patarenesismo, humiliatismo, bem como os valdenses e os judeus. Estes deveriam ser "banidos da igreja e castigados pelas autoridades seculares", autoridades estas que, ironicamente, eram exercidas por clérigos locais.
A Inquisição, chamada de "santa" pela Igreja, então, começou com as Cruzadas. Os cavaleiros cruzados, que muitos hoje veem em filmes como heróis, eram, na verdade, caçadores de pessoas, inocentes ou não, para serem castigadas pelo simples motivo de pensarem diferente do que a Igreja Pregava.
Sim, o "reino de Deus na Terra", segundo Agostinho, a "igreja do deus trino", agora perseguia e castigava pessoas. Mas a coisa iria piorar e muito. Pelos próximos quase 6 séculos, a Inquisição iria ficar mais brutal, perseguindo toda e qualquer religião diferente da católica, com destaque para a Inquisição Espanhola, cujos efeitos duram até hoje, ocasionando a morte de milhões de pessoas (homens, mulheres e crianças), inocentes, indo acabar apenas 1834.
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- Desunião Cada Vez Mais -
Produziu a Inquisição a esperada união "para a maior glória de Deus", como se escrevia nos seus processos de julgamento? Não. Pelo contrário, a Igreja produziu cismas ainda maiores que antes. No Século 16, por exemplo, surgiram os reformadores. Lutero, Calvino, etc., todos eles antes padres católicos. Grandes religiões, a ponto da Igreja Católica não poder perseguir, foram formadas por eles. Religiões estas que duram até hoje.
Mas, e hoje? Como é a Igreja Católica nos dias atuais? O que ela prega e qual é o resultado de sua presença, cada vez menor, nos países ocidentais?
É o que vamos ver na próxima parte.
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sábado, 27 de julho de 2024

Igreja Católica - Como Se Formou? - Parte 8

 Igreja Católica - Como Se Formou? - Parte 8

Uma cópia de página da obra de Agostinho,"Cidade de Deus", datada de 1487. O interessante desta obra é que nela está o pensamento dele sobre a igreja em que exercia poder. E, por analisarmos este pensamento, vemos que a igreja hoje, não se baseia totalmente nele como alega, pois, se se baseasse, estaria mais próxima da mensagem bíblica.

- Pedro Era Papa de Cristo -
É interessante observar que a própria Igreja Católica, ao citar o que considera "seu início", coloca, como os livros de História também seculares colocam, os Pais da Igreja em destaque. Assim, Justino, o Mártir (100-165 DC), Orígenes, de Alexandria (185-254), Agostinho de Hipona (354-430 DC) e outros, sempre são citados como os "originadores", ou pelo menos como aqueles que "definiram o que é a Igreja" que perdura até hoje. E fazem isso com base na História comprovada e não em suposições, teorias, tradições ou crenças.
Por outro lado, quando citam o apóstolo Pedro (os outros apóstolos não são citados), como fundador da Igreja, é por interpretações de textos bíblicos. Já que não se encontra na Bíblia nenhum texto que formalize tal designação, as interpretações - e não explicações claras - são necessárias. E Pedro é colocado como exercendo o papado a partir do ano 30 indo até 67.
O ano 30 soa estranho. Entre outras coisas, os católicos consideram que a "comissão" de Pedro como Papa, se deu quando Jesus falou-lhe, em Mateus 16:13, as seguintes palavras: "tu és Pedro e sobre esta pedra erguerei a minha igreja...".
Só que estas palavras de Jesus foram ditas no ano 33, perto da morte dele na estaca. Assim, a Igreja considera que Pedro, então Papa no ano 30, exercia a "chefia", quando Jesus começou a pregar.
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- A Mutante Lista de Papas -
Na verdade, não existe uma lista "oficial" de papas. Caso o papado fosse de origem bíblica, era para, em ao menos uma das cartas das Escrituras Gregas Cristãs (ou o "Novo Testamento") citar a sucessão de papas. Mas, até o ano 100, ano em que foi escrito o Apocalipse, nada foi escrito na Bíblia a respeito disso.
Além de não existir a lista, a Igreja, periodicamente relança uma lista criada séculos depois, em seu "Anuário Pontifício". Lista essa que tem sofrido modificações a cada relançamento. Por vontade do Papa no poder, alguns papas do passado podem ser retirados, colocados ou recolocados na lista, dependendo do que, em pesquisas históricas, se descobre sobre eles.
De qualquer forma, a Igreja Católica considera mais válida a palavra dos "santos", ou daqueles "pais da Igreja" do passado, do que as palavras da Bíblia. Nas literaturas católicas, são palavras, não dos apóstolos, mas desses "pais da igreja" que ressoam como ordens.
O que disseram esses "pais da Igreja"? O que eles disseram serve de base para entendermos que a Igreja Católica, na verdade, não se baseia nem nos apóstolos e nem nos "pais da Igreja".
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- A Crença na Política -
Volta e meia nos deparamos com escritos dos "santos", ou os "pais da igreja", sempre exortando a crer na Igreja ou a colocar a Igreja Católica sempre em evidência. Mas na verdade, o mais correto é que esses "pais da Igreja" nunca disseram tais coisas.
Por exemplo, o filósofo Agostinho (354-430 DC), chamado de "santo" pelos católicos, e tido por eles como "o maior doutor do mundo católico", viveu numa época em que a corte imperial de Roma e a nova Igreja Católica (criada em 325) eram unidas politicamente. Acreditava-se, por isso, que Deus apoiava o império e que o mundo seria subjugado ao catolicismo "com a ajuda de Deus". Isso aconteceria mesmo se fosse pelo poder da espada romana.
Mas em 410 DC, Roma foi derrotada pelos gôdos, um povo germânico. O povo romano disse que a derrota foi por causa de terem se voltado para o cristianismo e abandonado os antigos deuses romanos. Respondendo a este pensamento, Agostinho escreveu uma "resposta", de 22 livros, durante 14 anos (413 a 426).
Nesta obra, bem como nas outras, não se encontra nenhuma palavra de Agostinho exortando a crença na Igreja. Em sua época isso não era preciso. Eu se cria na igreja ou por ela seria considerado inimigo.
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- Agostinho em Defesa do "Protestantismo" -
Na obra de Agostinho, chamada de "Cidade de Deus", vista como "valiosa obra filosófica católica", há coisas interessantes, normalmente desprezadas pelos atuais católicos. Agostinho defendia, não o que dizia, mas a Bíblia (a "sola escritura" que os católicos desprezam como sendo "protestante") como "valor de fé e autoridade" e não a Tradição. Agostinho também propunha retirar do cânon bíblico os livros apócrifos (Tobias, Judite, Sabedoria, Macabeus, etc.) "porque os antigos pais (os apóstolos) não os conheciam".
Assim, Agostinho defendia, não a crença na Igreja Católica, mas a crença no que mais tarde os "protestantes" pregavam como verdade: a Sola Escritura (ou Somente a Bíblia).
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- Agostinho Não Defendida a Primazia de Pedro -
A respeito da "primazia de Pedro", Agostinho disse o seguinte: “Nós, os que somos cristãos re et ore, em atos e em nome, não cremos em Pedro, mas Naquele em quem Pedro cria." Na sua época, alguns bispos já estavam querendo, com interpretações filosóficas sofisticadas, colocar Pedro como o primeiro "chefe", mas Agostinho lhes respondeu: "não ficamos enfeitiçados pelos seus encantos, nem somos enganados pela sua mágica." Obviamente Agostinho não se deixava levar por aquelas interpretações de textos bíblicos que tentavam colocar Pedro como primaz dos apóstolos. Agostinho acreditava firmemente que a "pedra" mencionada em Mateus 16:18 era Jesus, não Pedro.
Todavia, apesar desse posicionamento correto perante esses pontos de vista bíblicos, não devemos esquecer que ele era um dos "pais da igreja". Por isso, embora parecesse correto em alguns pontos, subvertia outros.
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Se você for católico talvez nunca tenha ouvido um padre falar de Agostinho citando as palavras reais dele. No entanto a obra dele está preservada até hoje para consultas.
Visto que, a exemplo de Agostinho, os primitivos "pais da igreja" advogavam ideias contrárias ao que a Igreja prega hoje, por que ela se tornou o que é hoje, muito diferente do que pensavam seus "fundadores"?
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- O Desejo de Autoritarismo -
Ao contrário do cristianismo do primeiro século, que se baseava nas palavras de Cristo escritas na Bíblia, a Igreja Católica diz se basear no Papa como seu chefe supremo.
Mas, na verdade, mesmo sendo o Papa a maior autoridade no catolicismo, ela é muito dividida. Suas diversas divisões (ou "ordens", como a dos beneditinos, franciscanos, jesuítas, etc.), embora digam reconhecer o Papa como líder, tendem a ter pensamentos próprios e, não raro, críticos ao Papa.
Isso acontece por causa da sua formação. A Igreja Católica se formou a partir de um ambiente que demandava poder de um sobre outros: a corte do Imperador romano Constantino, no Século IV.
Os seus primeiros bispos, tornados "oficiais" a partir do Concílio de Niceia, eram tão gananciosos, por poder e luxo, como os senadores e governadores romanos. E eles brigavam entre si, não só do ponto de vista "teológico e filosófico", mas também do ponto de vista político. E brigavam para obter destaque perante outros.
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- Eusébio de Cesareia -
Um exemplo icônico de como se comportavam tais "bispos", é Eusébio de Cesareia (265 - 339). Ele viveu na época em que o imperador Diocleciano (243 - 312) perseguia e matava os "cristãos". Era para ter sido morto junto com milhares de outros, por ser "cristão", mas estranhamente escapou da perseguição. Alguns dizem que ele, ao ser preso, disse que não acreditava em nada daquilo do qual fazia parte e ainda fez sacrifícios aos deuses pagãos para convencer os romanos.
Seja como for, Eusébio podia transitar livremente entre aqueles que perseguiam os cristãos e até visitar cristãos na cadeia, antes destes serem mortos. Tornou-se Bispo de Cesareia em 313 ou pouco depois, sucedendo o bispo anterior, Agápio (258 - 303).
No Concílio de Niceia (maio a agosto de 325) que tornou aqueles bispos, os líderes da "religião oficial" do Império, Eusébio já era o favorito do imperador Constantino (272 - 337). Ficava num "lugar de destaque" e discursava como quem tinha autoridade (na verdade sua autoridade provinha da proteção do imperador).
Depois do Concílio, já com posição, prestígio e poder assegurados, começou a brigar com diversos outros Bispos a quem chamava de "oponentes".
Por exemplo, Eustácio, que foi bispo de Antioquia de 324 a 332, o acusou de "ter se afastado do credo niceno". Eusébio, embora não defendesse a unicidade de Cristo e Deus, acabou assinando o "Credo de Nicéia", que propunha o contrário do que ele acreditava . O resultado da briga? Graças ao prestígio do Eusébio junto a corte, foi a condenação e a deposição de Eustácio do cargo.
Outro "oponente" foi Atanásio, bispo de Alexandria (296 - 373). Este apresentou sua causa diretamente ao imperador Constantino. Mas como Eusébio era o favorito do imperador, Atanásio é que foi condenado ao exílio.
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- Nuvens Negras no Horizonte -
Esta era, e, de certa forma, ainda é, a organização da Igreja Católica. Está mais apoiada no jogo político do que em "doutrinas de fé".
Ao contrário da época dos apóstolos, quando os cristãos, mesmo espalhados por muitas terras acataram apenas os que os apóstolos, centralizados em Jerusalém, resolviam, a Igreja estava (e ainda está) dividida em "bispados", onde, o que vale não é o que a Bíblia diz, mas o que o bispo local diz.
E esta situação de divisão iria piorar ainda mais. Entre os anos de 440 a 461, a apostasia iria tomar rumos mais radicais e nocivos para as populações, com a aparecimento de um "chefe dos bispos", ou "papa".
E isso é o que vamos ver na próxima parte.
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Continua...



Igreja Católica - Como Se Formou? - Parte 7

 Igreja Católica - Como Se Formou? - Parte 7

A representação do que era uma reunião dos apóstolos e anciãos em Jerusalém. Não havia um "chefe". A Bíblia sempre coloca os apóstolos e os anciãos em pé de igualdade e não cita nenhuma decisão pessoal de qualquer um deles. Todas as decisões eram feitas "de comum acordo" (Atos 1:13,14; 15:25)
Também não havia um templo ou "lugar especial" para essas reuniões. Elas podiam acontecer em qualquer lugar de Jerusalém, pois o importante era a reunião em si, e não o lugar.


Para podermos comparar a organização da Igreja Católica com a congregação cristã do primeiro século, a fim de vermos se uma é a continuação da outra, conforme dizem os católicos, temos antes que ver como elas funcionam. Primeiro vamos ver como funcionava a organização dos cristãos sob os apóstolos:
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- Os Primeiros Cristãos -
Conforme já vimos, os apóstolos constituíram um grupo único, de "testemunhas oculares" de Cristo. Por isso não seriam substituídos ou continuados. E enquanto estavam vivos formavam o "corpo governante" dos cristãos, decidindo as questões que surgiam. 
Vimos também que, depois da morte deles, iniciou-se uma "grande apostasia", conforme previsto pelos antigos profetas e por Paulo. Assim, qualquer organização religiosa que se diz "continuação  dos apóstolos" ou da "igreja primitiva", dá testemunho contra ela mesma.
O cristianismo do primeiro século, iniciado por Cristo na região da Galileia, se estabeleceu em Jerusalém, e, seguindo a ordem de Cristo para "não saírem" daquela cidade (Atos 1:4), embora espalhassem sua mensagem para quase todo o mundo conhecido, realmente não saiu de lá até a morte de João, o último dos apóstolos, pouco depois do ano 100.
Assim, de Jerusalém, os apóstolos e os cristãos convertidos se espalharam por todas as regiões. Haviam os anciões designados para pregarem aos circuncisos (Tiago, Pedro e João eram destes [Gálatas 2:8]) situados mais a leste de Jerusalém, em direção a Babilônia, e os designados para pregarem aos incircuncisos, ou pessoas das nações não judias (Paulo e Barnabé eram destes [Atos 9:15; 13:2 e 1ª Timóteo 1:12]), situados mais a oeste de Jerusalém, em direção a Roma .
De fato, Pedro, juntamente com Marcos e outros estavam em Babilônia, por volta de 64 DC, quando escreveu sua primeira carta aos povoados em volta daquela cidade, na região da Ásia Menor: Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia (1ª Pedro 1:1, 5:13). 
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É digno de nota que Pedro, ao escrever sua 2ª Carta, citou as cartas de Paulo que, evidentemente escrevia em Roma ou nos arredores dela (2ª Pedro 3:15,16). Como as cartas de Paulo foram escritas por volta de 56 a 60 (ou mais) DC (a carta aos romanos por exemplo, foi escrita em 56 DC), a 2ª carta de Pedro foi escrita dentro deste período ou posteriormente. Isso mostra que Pedro estava vivo até depois do ano 56, embora não se saiba em qual ano, depois de 56 ele tenha falecido.
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Após esse período, ou perto do ano 60, não se tem notícia mais notícia dos apóstolos. O certo é que continuaram com a pregação que lhes haviam sido designadas. Mas não se sabe até quando viveram e como morreram. Paulo, Pedro e outros podem ter vivido até próximo dos anos 100 ou pouco menos, chegando mais longe em suas designações de pregação. Pedro indo além de Babilônia, dentro da Ásia a leste, e Paulo, indo além de Roma até a Espanha. 
O fato é que, por volta dos anos 100, João escreveu o livro do Apocalipse, quando estava preso na ilha de Patmos, um lugar perto do que hoje é a Turquia. É interessante que o Apocalipse é endereçado às sete congregações da Ásia e não cita Roma (Apocalipse 1:4).
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- Homens Comuns e Sem Instrução -
Os apóstolos eram pessoas comuns, sem nenhum destaque na sociedade. A maioria eram simples pescadores sem qualquer instrução acadêmica. Até seus inimigos os reconheciam assim. Pedro e João por exemplo, não foram reconhecidos como "lideres" mas como pessoas "sem instrução" (indoutos) e comuns" (Atos 4:13). Pedro, ao contrário do que dizem os católicos, "era enviado" pelos outros apóstolos sediados em Jerusalém para pregar (Atos 8:14). Caso Pedro fosse "o chefe", ele enviaria os outros e não seria enviado por eles.
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Entre os apóstolos, Paulo era o único que tinha tinha instrução. E ele nem era um dos apóstolos visto que não tinha convivido com Jesus. Talvez, por causa da instrução de Paulo, os inimigos do cristianismo, erradamente viam, não Pedro, mas Paulo como o "chefe" dos cristãos, que chamavam de "seita dos nazarenos" (Atos 24:5-8). 
Pedro, em suas cartas, recomendava as cartas de Paulo e reconhecia que eram "difíceis de entender" (2ª Pedro 3:16). Tais cartas de Paulo, foram escritas, obviamente, com um bom nível de erudição, difícil para Pedro, que não tinha instrução, as entender. E, Paulo, uma vez, precisou censurar publicamente Pedro, por este não estar fazendo as coisas do modo correto (Gálatas 2:11,12). Assim, se tivesse que haver um "chefe" entre os cristãos, este certamente seria Paulo e não Pedro.
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- Sem Um Chefe -
Ao contrário do que acontece nas organizações mundanas e nas organizações religiosas (incluindo as atuais igrejas da cristandade), os cristãos do primeiro século não tinham um "chefe". Eles decidiam as coisas em grupo, sempre se orientando pelas escrituras e por orações. De fato, há na Bíblia até uma ordem expressa de Jesus para se evitar chefias humanas no que diz respeito ao cristianismo (Mateus 23:9-12)
Por exemplo, em Atos 15:6-11, os vemos "se reunindo em Jerusalém" para discutir e resolver questões da pregação para pessoas que não eram dos judeus. 
Os católicos costumam citar que "Pedro se levantou no meio deles" (versículo 7) como prova de sua chefia, como se o simples fato de ficar de pé fosse indicativo de chefia. Indica tal versículo que Pedro era o "chefe"?
Não. Se fosse assim, seria Pedro que convocaria as reuniões, inclusive aquela, e não precisaria se levantar "depois de longa e intensa discussão". Não precisaria nem haver discussão. Os apóstolos e os anciãos o obedeceriam. Mas, ao invés disso, se reuniam e decidiam as coisas em conjunto, sem citar nomes ou decisões proferidas por um só apóstolo (Atos 16:4,5). 
Assim, o fato de Pedro ter se levantado no meio deles e falado que "deus o escolheu", não foi para chefiar ninguém, mas simplesmente para ir pregar às pessoas que era circuncidadas (os circuncisos) já que Paulo e outros eram mais aptos para pregar às pessoas que não eram circuncidadas (Atos 15:1,2). Um dos temas da reunião era sobre quem iria pregar aos incircuncisos. Não seria Pedro, que reconhecia publicamente a sua inaptidão de ir à Antioquia pregar aos incircuncisos, mas Paulo, Barnabé e "outros" é que "foram enviados" (Atos 15:22,23).
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Na próxima parte, vamos ver como funciona a organização da igreja Católica, que diz ser "continuação dos apóstolos". Será que se parecem?
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Continua...


Igreja Católica - Como SE formou? - Parte 5

 Igreja Católica - Como SE formou? - Parte 5

Representação de Judas Iscariotes. Judas conheceu Cristo, se tornou seu discípulo, mas ao invés de desenvolver uma personalidade cristã, escolheu pensar em si mesmo, se tornando um ganancioso ladrão (João 12:4-6). Este apóstolo, que depois traiu Cristo (por dinheiro) e morreu antes da formação da primitiva congregação cristã em Jerusalém (narrada no livro de Atos), é o melhor exemplo contra a sucessão apostólica pregada pela Igreja Católica. Jesus, que já estava para morrer, não o substituiu e nem indicou um substituto dele aos apóstolos. Portanto não eram mais doze apóstolos os formadores da primitiva congregação, mas onze.
A substituição de Judas, para dar conta do que ele fazia, chegou a ser considerada pelos onze apóstolos. O próprio Pedro falou a respeito (Atos 1:21,22), levando em conta o Salmo 109:8. O escolhido foi Tiago, irmão de João, mas não para se tornar apóstolo, e sim como testemunha "junto aos apóstolos". Era "junto" porque não havia sido escolhido pelo próprio Cristo. Tiago foi morto logo depois de ser escolhido e não foi substituído (Atos 12:2).
A escolha de um substituto para Judas foi por causa do seu erro e não por causa de sua fé, ou porque a conta "precisava ser doze" (Atos 1:17-20). Quando Tiago morreu, não precisou ser substituído. Além disso, Tiago só foi escolhido porque participou ativamente, no tempo de vida terrestre de Cristo, junto com os apóstolos, como "testemunha" dos feitos de Cristo.

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- Houve Uma "Sucessão Apostólica"? -
Como vimos nas partes anteriores, nem o "papado" (a sucessão de papas) e nem uma igreja "oficial" foi fundada por Cristo ou Pedro. Não eram objetivos do cristianismo, pois, se fossem estariam claramente instruídos na Bíblia. De onde então surgiram aqueles que, mais tarde, formaram essa igreja e esse "papado"?
Antes de considerarmos esse surgimento da igreja, é preciso entender se houve ou não a alegada "sucessão apostólica".
A igreja sustenta, por exemplo, que Lino substituiu Pedro, se tornando o segundo Papa, no ano de 67. Mas é bem provável que, nesta época Pedro e outros apóstolos ainda estivessem vivos. Ou seja, se alguém tivesse que substituir Pedro, certamente seria um dos apóstolos e não alguém que não era dos onze.
Além disso, na sucessão de Papas católicos, segundo a Igreja Católica, três outros Papas surgiram (Anacleto em 76, Clemente 1 em 88 e Evaristo em 97). Mas, João, apóstolo e companheiro de Pedro nas pregações, estava, comprovadamente, vivo até depois do ano 98 (ou mais perto do ano 100), ano em que, historicamente, escreveu o Apocalipse.
Como pode alguém, de fora do grupo dos onze apóstolos, "subir" e se tornar chefe deles no cristianismo? Se tivesse que haver um "papa", ou "sucessor de Pedro", este certamente seria João, companheiro de Pedro nas pregações e o escritor de cinco livros bíblicos,  não pessoas que nem tinham seus nomes escritos na Bíblia.
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- Lino Foi Papa? -
Mas e Lino? Ao contrário dos outros três, Anacleto, Clemente e Evaristo, a Bíblia menciona, apenas uma vez, um cristão em Roma chamado Lino.
Na sua segunda carta à Timóteo, Paulo cita este nome "junto com outros" mandando cumprimentos (2ª Timóteo 4:21). Indica isso que Lino foi Papa? Certamente que não. Então como foi que a Igreja Católica colocou o nome Lino, como sucessor de Pedro e de outros como seus sucessores?
O fato é: Nem Lino, nem Pedro ou qualquer outro tem, na Bíblia, seus nomes ligados a uma suposta "chefia" entre os cristãos. Nenhum dos escritores bíblicos fala de Pedro ou de outros como 'papas' ou como seus líderes. Assim, a Igreja Católica colocou esses nomes numa "lista de chefes", por pura tradição, uma tradição que certamente adveio da apostasia, predita por Paulo, que aconteceria após a morte dos apóstolos (Atos 20:29,30).
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- Pedro Continuou Mas a Bíblia Não? -
Os primeiros Apóstolos escolhidos por Jesus cumpriram seu papel na formação da primitiva congregação cristã, que, segundo as profecias, deveria deixar de existir "por um tempo", até que fosse restaurada "no devido tempo" ( Daniel 7:23-25; Daniel 2:44) [essas profecias serão consideradas num assunto futuro]). Os apóstolos serviram como "testemunhas oculares" e "proclamadores da mensagem" do Cristo (Lucas 1:2; 2ª Pedro 1:16) e não mais que isso.
Por isso, nenhuma sucessão seria admissível. Quando Cristo morreu, não haveria, no futuro, testemunhas oculares do que Ele fez.
Caso houvesse mesmo uma sucessão, teria que haver de todos eles, e não só de Pedro. E, mesmo que houvesse sucessão só de Pedro, por que a Bíblia foi fechada com o livro do Apocalipse de João? Seus sucessores também não escreveriam livros bíblicos, inspirados por Deus, que seriam anexados ao Canon? 
Se assim fosse, a Bíblia hoje, seria um gigantesco livro com bilhões de páginas, praticamente impossível para uma pessoa, em seu tempo de vida, ler e entender o que Deus lhe diz.
Assim, não há lógica em dizer que houve sucessão de Pedro, se é fato, até entre os católicos, que o tempo dos apóstolos foi um só, e que acabou com a morte de João.
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- O Restabelecimento do Reino -
Jesus não falou em uma continuação dos apóstolos, como se o seu Reino já estivesse em vigor naquele tempo. Pelo contrário, Jesus sabia que o mundo pertencia, não a ele, mas a satanás (Mateus 4:8,9). Bem mais tarde, João escreveu sobre "o mundo todo" morrendo nas mãos de satanás (1ª João 5:19). Mas o mundo não permaneceria para sempre nas mãos de satanás. Jesus falou, com seus apóstolos, sobre o tempo em que restauraria o reino de Deus (Mateus 24:45-47; Lucas 12:37).
Ele voltaria, no futuro, para "encarregar" os seus fieis de seus assuntos (Mateus 24:43-47). Se houvesse uma "continuação" dos apóstolos, não haveria sentido nas profecias que prediziam o "tempo dos gentios" (Lucas 21:24). Se tivesse havido "continuação" dos apóstolos, com uma "sucessão de Pedro, a prevista "volta de Cristo" seria uma promessa vazia, uma vez que seu "escravo fiel" já estaria em vigor desde aquela época.
A própria palavra "restabelecimento" do Reino, predita pelo profeta Daniel (Daniel 2:44), para o final dos dias, não faria sentido, caso houvesse uma continuação apostólica.
De maneira que, quando a Igreja Católica se diz "sucessora dos apóstolos", "continuação dos apóstolos", ou "o reino de Deus" na Terra (mas que constantemente diz que está "nos nossos corações"), ela está invalidando a palavra de Deus, como os fariseus faziam, por causa das suas tradições (Marcos 7:5-9)
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Assim, como a "sucessão papal" não encontra respaldo n Bíblia, a Igreja que está sob domínio dessa alegada "sucessão", também não tem respaldo bíblico. Voltamos então a pergunta anterior, que encabeçou esta parte: Como, exatamente, surgiu esta igreja? De onde ela veio e quando?
É o que vamos considerar na próxima parte.
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Continua